7. Significação, Contexto e Funções da Linguagem

1. 7  A Palavra, o Contexto e o Processo da Comunicação

Uma signo linguístico ou outro qualquer, já o dissemos, nada significam isoladamente, eles só existem quando colocados em um contexto lingüístico (um texto) e em relação a um contexto sócio-cultural. Assim é que a palavra “silêncio” só comunica algo quando alguém  a coloca em uma mensagem, em um idioma que é praticado em um meio físico, por exemplo: numa biblioteca ou na parede de um hospital, diante de leitores e ouvintes, isto é, numa situação comunicacional.  Por conta disto, Jakobson[1] afirma que a comunicação é um processo dinâmico em que vários elementos estão presentes e interagindo entre si:

Contexto

Remetente               Mensagem                Receptor

Canal

Código

Significa dizer que, durante a comunicação, a mensagem parte de um remetente e chega a um receptor que, comumente, também se torna remetente ao ter uma atitude responsiva em relação à mensagem que recebeu.  Para que a comunicação seja eficaz, além disso, ela deve acontecer em uma mesma língua (ou linguagem), pois não haveria comunicação clara e perfeita caso o remetente usasse o Português e o receptor, o Inglês ou o Braile, assim é que ambos devem ter por base um código comum.  Além do mais, é indispensável que haja um canal em funcionamento, isto é, um meio, um espaço físico ou eletrônico onde possa haver a conexão psicológica entre os dois pólos comunicativos: a co-presença entre duas pessoas, o telefone, a sala de aula, a internet, etc. Enfim, as palavras de uma língua ou os gestos de uma linguagem devem dizer respeito a um contexto.

Mas o que é o contexto?

A idéia de contexto está ligada ao ambiente linguístico onde se acha a frase, à  situação social em que ela ocorre  e a experiência do autor e do leitor em relação a determinado assunto, todos estes são elementos formadores do contexto[2], mas a a acepção de Jakobson parece estar bastante ligada à idéia de referencial, que é “o elemento do mundo extralingüístico, real ou imaginário, ao qual remete o signo lingüístico, num determinado contexto sociocultural e de discurso”[3].   Ora, um texto, assim como os signos que o compõem, é uma composição que remete para algo que está para além dele, e este “para além” é, o que aqui é denominado de contexto.  Dissemos em parte por que alguns autores consideram que também o

Alguns exemplos podem ser arrolados: ao falarmos  ou escrevermos sobre o divórico, o contexto poderá ser em sentido mais estrito o texto do código civil, mas também outros textos que tratam do assunto, bem como o que entendem sobre tal tema os interlocutores de determinado diálogo sobre o divórcio, além do ambiente social onde ocorre o debate: o fórum, a sala de aula, o escritório de um advogado, etc; se estamos a escrever sobre as funções da linguagem, o contexto poderá a teoria de Jakobson sobre tal tema, ou de um modo mais amplo a  Linguística ou a Semiologia.   Portanto, o contexto, no sentido jakobsiano,  é aquilo a que o texto faz referência, o que pode ser entendido em sentido estrito, ou em termos mais amplos: a cultura, a ciência, a realidade.

Algumas inferências podem ser feitas a partir disto.  A primeira delas, é que todo texto se refere a um contexto, o que de alguma forma leva em consideração outros textos, pois, já o dissemos: tomamos consciência dos acontecimentos e das coisas através da linguagem e esta vem estruturada através de textos.  Assim é que nossa formação educacional e ideológica, nossa “cultura”, as informações que recebemos sobre a realidade, a ciência, a história, tudo chega a nós, direta ou indiretamente, através de textos. A comunicação humana, portanto, sempre está envolvida com a cultura e esta existe através dos  textos, é neles que a linguagem funciona. Vejamos de que modo.

2.2.3.2 As Funções da Linguagem

Baseado no processo da comunicação, Jakobson nos proporciona um discernimento sobre o funcionamento da língua nos textos. Assim, se a função primordial da linguagem é a comunicação, as línguas, para cumprirem tal missão, se desdobram em diferentes formas de comunicação. Por exemplo: ora usamos a língua para nos referir a acontecimentos reais, ora usamo-la para explicar o que estamos querendo dizer com nossas palavras, ora usamos a língua para estabelecer um contato, ora revelamos nossas emoções e, por fim, através das palavras tentamos influenciar os nossos interlocutores.  Deste modo, a língua é algo maleável em sua função de comunicar, daí ela ter, a partir desta, diferentes sub-funções em acordo com cada um dos diferentes elementos do processo comunicativo.

O gráfico abaixo revela as diversas funções da linguagem em acordo com os elementos básicos envolvidos no processo da comunicação:

Referencial

Contexto

Emotiva                 Poética               Conativa

Emissor              Mensagem                Receptor

Fática

Canal ou Contato

                                       Metalingüística

Código

Explicando tal quadro podemos notar que as funções que estão em negrito correspondem aos elementos do processo de comunicação. Sendo assim, as funções são as seguintes:

a)                   A função Emotiva ou Expressiva – revela a atitude do próprio emissor, falante ou escritor, em relação ao conteúdo da mensagem quando ele coloca ou simula emoção em suas palavras.  Interjeições, ou falas enfáticas, opiniões, avaliações são componentes que fazem notar a presença emocional do emissor no texto, assim como as marcas de primeira pessoa do discurso: eu, me , nós…

Tal função, por isso,tende a predominar em alguns gêneros lingüísticos como a carta de amor, a biografia, nos depoimentos de pessoas acusadas judicialmente, em que falamos de nós mesmos.  Quando dizemos, em uma mensagem, “estamos muito muito bem” ou “ ai que saudade que sinto de você, como eu gostaria de estar aí do teu lado para podermos conversar… você é um graaaande amigo mesmo” então estamos nos colocando emocionalmente na superfície do texto e, assim, revelando na linguagem, real ou simuladamente, aquilo que sentimos.

b)                  Conativa – também denominada Apelativa ou Imperativa, esta função existe para que possamos chamar a atenção do receptor para o que estamos dizendos, portanto é quando a mensagem do texto está centrada no interlocutor.  O vocativo e o imperativo são algumas das marcas mais evidentes desta função. Ela é bastante usada nos textos persuasórios: na propaganda  e no discurso jurídico quando precisamos  convencer juízes e júri, estimulando-os a adotar as nossas teses.  Nas propagandas quase sempre aparececem expressões do tipo: “Veja, você, querido espectador..”.  “O que você está esperando para comprar o novo…” “Compare…”, “Acredite…”, “Meu querido eleitor, cidadão brasileiro…”.  Quando também oradores querem chamar diretamente a atenção do seu público, eles apela para tal função:  “As senhoras e os senhores hão de convir que…”, “ Conseguem os senhores jurados compreender que…” , “ Demonstro, Senhor juiz, que …”  , “Saibam os membros deste júri…”

c)                   A Função Poética é aquela em que o emissor da mensagem se preocupa em criá-la para produzir um efeito estético .  Sendo assim, aquele que produz a mensagem se importa, sobretudo, com a escolha e a combinação das palavras, não se importando tanto com fazer referência direta a algo real.  Assim, no mais das vezes a relação dos signos com os objetos concretos ou com os fatos é abandonada e faz-se menção a um contexto imaginário promovido pelo próprio texto poético. A orientação da mensagem é para si mesma e não para o mundo externo e, por esta razão, o artista não se preocupa tanto com o que dizer, mas sim com a maneira de dizer. Nota-se, por exemplo na frase: O amor é um grande laço,/ Um passo para uma armadilha,/ Um lobo correndo em círculo/ Pra alimentar a matilha/, não há uma preocupação em informar algo sobre um contexto real, em dizer algo sobre um fato ou um ser, a intenção de tais palavras é dizer algo que elas normalmente não dizem em situações do cotidiano ou em textos formais, pois, amor não é exatamente um laço ou lobo. Assim, apela-se para a capacidade de imaginar do leitor.

O próprio Jakobson demonstra que a função poética muitas vezes é usada fora co contexto artístico, isto é, sempre que nos preocupamos e de fato conseguimos um efeito estético.  Ele cita o exemplo do slogan  I like Ike [4], usado por um político para fazer propaganda política.  Sem dúvida houve escolha das palavras quanto ao som e a facilidade de memorizá-las por parte dos eleitores.

Evidentemente a função poética é predominante nos poemas, mas nestes, convém notar, é comum o uso de outras funções, que, por sua vez estão á mercê da poética.  Veja este exemplo:

Marília de Dirceu  de Tomaz Antonio Gonzaga

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’ expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela![5]

Aqui se nota que o poeta usa o vocativo “ Marília” e a primeira pessoa do discurso muitas vezes, o que dá ao texto um tom conativo ou emotivo.  Contudo, a figura de Marília é imaginária, criação do poeta, e o chamado eu lírico não representa exatamente o ser humano Tomás Antônio, mas um eu universal, um ser existente somente no interior do poema.  Assim, o texto poético usa bastante as várias funções da linguagem, mas o faz em favor da função poética, está domina e coloca as outras sobre o seu comando.

d)A Função Referencial, ao contrário da Poética, se preocupa em fazer com que a palavra indique um contexto que está para fora da mensagem, assim ela põe em foco o aspecto cognitivo da linguagem, ou seja, a usamos para tomar e dar ciência da existência de algo, de um contexto, por esta razão é também chamada de Cognitiva ou Denotativa.  Desta feita, ela é bastante usada nos textos que se preocupam em fazer referência ao mundo real: os textos científicos, os textos jornalísticos.    Quando digo que “ o domingo foi bonito, com bastante sol”, estou me referindo a um contexto real, conforme a minha interpretação, pois outra pessoa pode não gostar de sol, ou ter ficado o dia inteiro trancada em uma sala sem poder aproveitá-lo.  Posso também fazer referência a contextos imaginários:  O país das Maravilhas era muito interessante, pois os animais falavam”.  Repare neste exemplo jornalístico:

Histórico do Caso Nardoni

29 de março (sábado)

Às 23h30, Isabella Nardoni cai do sexto andar sobre o gramado em frente ao prédio. A menina chega a ser socorrida, mas morre pouco depois. O pai da menina e a mulher vão à delegacia, onde dizem que alguém jogou Isabella do sexto andar, mas não sabem quem foi.

O pai conta que chegou da casa da sogra com a família e subiu só com Isabella. Diz que levou a menina até o quarto dela e ligou o abajur. Depois trancou a porta do apartamento e voltou à garagem, para ajudar a mulher a subir com os outros dois filhos. Afirma ainda que, quando voltou ao apartamento, viu a tela de proteção da janela rompida e a filha caída lá embaixo.

Os médicos legistas analisam o corpo e encontram ferimentos que podem ter ser sido feitos antes da queda.

O pai e a mulher passam a madrugada na delegacia.

30 de março (domingo)

Os depoimentos duram o dia todo e a polícia fala, pela primeira vez.

O delegado afirma que foi homicídio e não acidente, porque a menina não sofreu uma queda acidental. Segundo a polícia, alguém rompeu a tela protetora da janela e jogou a criança.

31 de março (segunda-feira)

Isabella Nardoni é enterrada de manhã e o avô materno, José Arcanjo de Oliveira, é o único a dar declarações. Diz que o caso abalou a familia inteira.

No apartamento, os peritos descobrem que a tela rompida é a da janela do quarto dos irmãos, não do quarto da Isabella. Recolhem a tela e alguns utensílios de cozinha que possam ter sido usados para fazer o corte. Também levam amostras do sangue encontrado em vários pontos do apartamento e as roupas da vítima, entre elas uma camiseta rasgada nas costas.

Um operário que trabalhou no prédio presta depoimento, confirma que teve um desentendimento com o pai de Isabella, mas nega envolvimento na morte.

http://joelteixeira.net/2008/04/caso-nardoni-cronologia/  (Acessado em 10/07/2008)

É um texto que nos informa sobre o contexto de um crime.

Vale notar, porém, que mesmo sendo jornalístico, um texto não é o fato real, mas uma referência ou uma interpretação do real. Outra interpretação poderia ser dada ao acontecimento real:

Versão do pai

“Em depoimento, Nardoni afirma que ele, a esposa, os dois filhos do casal, de 11 meses e três anos, e Isabella chegaram da casa dos pais de Anna Carolina, por volta das 23h30, do sábado. Como as crianças dormiam, ele subiu com Isabella e colocou-a na cama. Em seguida, teria descido para buscar a mulher e os outros dois meninos.

O pai conta que, ao retornar ao apartamento, ouviu um barulho, olhou pela janela e viu a menina estendida no solo. Nardoni disse que o local havia sido invadido por um ladrão.

O delegado Calil Filho não se convence com o depoimento em razão da ausência de sinais de arrombamento no apartamento. No entanto, completa que Nardoni e Anna Carolina não são suspeitos. “Eles são averiguados”, frisa “http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2008/04/14/veja_a_cronologia_do_caso_isabella_nardoni_(Acessado em 11/07/08)

Vejamos mais uma interpretação do mesmo acontecimento:

Versão da Polícia

“A Polícia Civil de São Paulo decidiu indiciar o casal Alexandre Alves Nardoni, de 29 anos, e Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, 24, sob a acusação de terem assassinado a menina Isabella Nardoni, 5, filha de Alexandre. A conclusão é baseada em laudos extra-oficiais, segundo informações da reportagem do jornal “Folha de S. Paulo” desta quarta-feira. Após o indiciamento, a polícia pedirá à Justiça a decretação da prisão preventiva do casal.”

“http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2008/04/14/veja_a_cronologia_do_caso_isabella_nardoni_(Acessado em 11/07/08)

O que se conclui daí é que fazer referencia nem sempre é dizer ou encontrar a verdade, pois o fato, o acontecido, pode ser traduzido por textos com diferentes pontos de vista.  Um texto sempre é uma interpretação do real, um enfoque, e não o próprio real.  Alguns textos podem se aproximar mais do real, como no caso dos textos científicos que buscam fidelidade ao objeto de que tratam, todavia, mesmo leis científicas por vezes caem por terra.  Assim, o que determina a predominância em um texto da função referncial é atitude do emissor, a intenção que este tem ao querer revelar um contexto.

d)                  Função Fática ou de Contato serve para estabelecer prolongar ou interromper a comunicação.  Assim, ela estabelece, mantém ou encerra o canal de comunicação.  Quando dizemos: “Bom dia”, “Alô, como vai”,  “Você está me ouvindo”, estamos atuando no interior da mensagem para ver se o canal está aberto e se a comunicação vai prosseguir.  Isto caracteriza a função fática da linguagem.

e)                  A função Metalingüística serve para esclarecer os termos de nossa mensagem.  “Meta” que dizer “acima” ou “sobre”, a metalinguagem é uma linguagem que fala sobre a linguagem, explicando a sua significação.  É muito usada em gramáticas, em livros técnicos, em aulas e palestras, pois ali a língua é usada para explicar a própria língua e o texto é um metatexto..

Quando a gramática explica que “advérbio é uma  palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo (dormir pouco), um adjetivo (muito bom), um outro advérbio (deveras astuciosamente), uma frase (felizmente ele chegou), exprimindo circunstância de tempo, modo, lugar, qualidade, causa, intensidade, oposição, afirmação, negação, dúvida, aprovação etc..”

Quando um livro jurídico ou um professor de Direito explica:   “O que é o habeas corpus? (Art 5º , inc LXVlll -Constituição Federal – direito de ir e vir) É o meio jurídico utilizado sempre que o indivíduo sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer, por abuso de poder ou ilegalidade, restrição à sua liberdade de locomoção, ou seja, se achar preso ou em risco de ser preso.”

Em todos estes casos,  usa-se  as palavras para explicar o sentido de outras palavras, daí a função metalingüísca.

O que se nota, enfim, é que a função comunicativa da linguagem ocorre por conta de um desdobramento da mesma em várias funções, conforme os seres humanos necessitem fazê-lo em diferentes contextos.  Além disso, adverte Jakobson:

“dificilmente lograríamos, contudo, encontrar mensagens verbais que preenchessem uma única função.  A diversidade reside não no monopólio de alguma dessas funções, mas numa diferente ordem hierárquica de funções.  A estrutura verbal  depende basicamente da função predominante.”[6]

Signfica dizer que é comum os textos reunirem diferentes funções. Já o demonstramos aliás ao citar o poema Marília de Dirceu onde há a predominância da função poética, dado que o texto é voltado para uma realidade ficcional, mas há ali também uma presença forte da função emotiva  e da conativa, dado que o poeta fala o tempo todo de suas possem com o fim de convencer a amada de sua riqueza.  O uso do vocativo  e do pronome pessoal em “Graças, Marília bela, graças a minha Estrela, nos dá uma idéia, respectivamente da conatividade e da emotividade.

Em suma, para um estudo introdutório da linguagem, é importante notar como a linguagem se manifesta de maneira maleável nos textos.

2.2.3.4 Variações Linguísticas

Outra questão a ser abordada no estudo dos apsectos externos da lingua é o modo como ela ocorre nos diferentes setores da realidade.  Ora, na vida, é comum encontrarmos pessoas de diversas origens, ideologias, de variados níveis culturais, com vários estados de espírito e também em diferentes estágios de vida e grupos sociais.  E, vale dizer, mesmo uma única pessoa varia o seu estado de espírito e suas crenças ao longo da existência.  Todos estes modos de ser, esta pluralidade de visões de mundo são captados e refletidos no uso da língua, pois o pensamento é feito de linguagem e, no âmbito da dela, é a língua que melhor revela quem são os seres humanos, por quais situações eles estão passando e de que modo eles percebem o mundo.

Dando atenção ao modo como um ser humano incorpora  e usa a língua em relação ao contexto a que se refere, à situação social em que se encontra, conseguimos conhecer melhor as pessoas e detectar os seus valores e crenças, seu nível cultural, seus estados de espírito e, por conta disto, podemos compreender melhor as pessoas e nos comunicarmos de maneira mais eficiente com elas.  No dia a dia do trabalho profissional, por exemplo, é importante saber qual a linguagem mais adequada a cada momento, pois com isto, revelamos quem somos e o nosso grau de discernimento e de inteligência emocional.  É assim que um vendedor consegue melhores resultados em sua performance, quando consegue perceber no modo de falar de seu cliente o estado de espírito, esnobe, carente, etc., em que ele está;  é assim também que um advogado consegue captar o nível de conhecimento de seu futuro cliente, ou a diferença entre um criminoso humilde e um especialista em estelionato; é assim que um professor detecta com que aluno está lidando, quais as suas carências e suas habilidades.  Falar, mais do que vestir, dá a conhecer quem é o ser humano e em qual estágio de vida ele está.  O que se pode concluir a partir disto é que, além da importância do  conhecimento da gramática e dos demais elementos internos da língua, para melhor conhecermos o ser humano e assim otimizar nosso desempenho profissional, é fundamental estudar a língua em uma perspectiva mais ampla, ou seja, no modo como ela conduz a cultura e revela o ser humano.

De fato, na interação entre as pessoas, a língua não é uniforme, ela vai se transformando conforme a situação e o modo de ser dos usuários, apesar de haver uma norma  a servir de parâmetro para o seu uso.  Assim, a comunicação é a função principal de uma língua e nem sempre o uso formal é adequado.  Não soa bem, por exemplo, sermos completamente formais com nossos colegas de trabalho em uma festa de confraternização e informais em uma reunião de trabalho que envolve clientes e pessoas não íntimas.  É preciso adequar o discurso à situação e às pessoas com que estamos falando.

O funcionamento da língua, deste modo, sobre a influência da situação social e dos interlocutores, daí os estudiosos da língua darem atenção especial às variações que as línguas sofrem no âmbito das interações sociais e proporem uma  classificação das diferentes modalidades de uso daquela.

Um dos discernimentos está justamente na divisão entre linguagem culta e coloquial.  Vejamos isto nos textos abaixo. O primeiro é um fragmento do discurso de formatura de autoria de Rui Barbosa, proferido em 1920, por ocasião de ter sido o ilustre advogado o paraninfo da turma da Faculdade de Direito de São Paulo.  Trata-se do uso da norma culta, próprio dos bacharéis de direito dos primórdios do século passado. Em tal texto, o autor aconselha uma  atitude ética no desempenho da profissão de jurista.

REGISTRO CULTO X COLOQUIAL

ORAÇÃO AOS MOÇOS

Senhores:

Não quis Deus que os meus cinqüenta anos de consagração ao direito viessem receber no templo do seu ensino em São Paulo o selo de uma grande bênção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos em que o ides esposar.

Em verdade vos digo, jovens amigos meus, que o coincidir desta existência declinante com essas carreiras nascentes agora, o seu coincidir num ponto de interseção tão magnificamente celebrado, era mais do que eu merecia; e, negando-me a divina bondade um momento de tamanha ventura, não me negou senão o a que eu não devia ter tido a inconsciência de aspirar.

Mas, recusando-me o privilégio de um dia tão grande, ainda me consentiu o encanto de vos falar, de conversar convosco, presente entre vós em espírito; o que é, também, estar presente em verdade.

Assim que não me ides ouvir de longe, como a quem se sente arredado por centenas de quilômetros, mas ao pé, de em meio a vós, como a quem está debaixo do mesmo teto, e à beira do mesmo lar, em colóquio de irmãos, ou junto dos mesmos altares, sob os mesmos campanários, elevando ao Criador as mesmas orações, e professando o mesmo credo.

Direis que isto de me achar assistindo, assim, entre os de quem me vejo separado por distância tão vasta, seria dar-se, ou supor que se está dando, no meio de nós, um verdadeiro milagre?

Será. Milagre do maior dos taumaturgos. Milagre de quem respira entre milagres. Milagre de um santo, que cada qual tem no sacrário do seu peito. Milagre do coração, que os sabe chover sobre a criatura humana, como o firmamento chove nos campos mais áridos e tristes a orvalhada das noites, que se esvai, com os sonhos de antemanhã, ao cair das primeiras frechas de oiro do disco solar.

Embora o realismo dos adágios teime no contrário, tolerem-me o arrojo de afrontar uma vez a sabedoria dos provérbios. Eu me abalanço a lhes dizer e redizer de não. Não é certo, como corre mundo, ou, pelo menos, muitas e muitíssimas vezes, não é verdade, como se espalha fama, que “longe da vista, longe do coração”.

O gênio dos anexins, aí, vai longe de andar certo. Esse prolóquio tem mais malícia que ciência, mais epigrama que justiça, mais engenho que filosofia. Vezes sem conto, quando se está mais fora da vista dos olhos, então (e por isso mesmo) é que mais à vista do coração estamos; não só bem à. sua vista, senão bem dentro nele.

Não, filhos meus (deixai-me experimentar, uma vez que seja, convosco, este suavíssimo nome); não: o coração não é tão frívolo, tão exterior, tão carnal, quanto se cuida. Há, nele, mais que um assombro fisiológico: um prodígio moral. E o órgão da fé, o órgão da esperança, o órgão do ideal. Vê, por isso, com os olhos d’alma, o que não vêem os do corpo. Vê ao longe, vê em ausência, vê no invisível, e até no infinito vê. Onde pára o cérebro de ver, outorgou-lhe o Senhor que ainda veja; e não se sabe até onde. Até onde chegam as vibrações do sentimento, até onde se perdem os surtos da poesia, até onde se somem os vôos da crença: até Deus mesmo, inviso como os panoramas íntimos do coração, mas presente ao céu e à terra, a todos nós presentes, enquanto nos palpite, incorrupto, no seio, o músculo da vida e da nobreza e da bondade humana.

Quando ele já não estende o raio visual pelo horizonte do invisível, quando sua visão tem por limite a do nervo ótico, é que o coração, já esclerótico, ou degenerescente, e saturado nos resíduos de uma vida gasta no mal, apenas oscila mecanicamente no interior do arcaboiço, como pêndula de relógio abandonado, que agita, com as derradeiras pancadas, os vermes e a poeira da caixa. Dêle se retirou a centelha divina. Até ontem lhe banhava ela de luz todo esse espaço, que nos distancia do incomensurável desconhecido, e lançava entre este e nós uma ponte de astros. Agora, apagados esses luzeiros, que o inundavam de radiosa claridade, lá se foram, com o extinto cintilar das estrelas, as entreabertas do dia eterno, deixando-nos, tão-somente, entre o longínquo mistério daquele termo e o aniquilamento da nossa miséria desamparada, as trevas de outro éter, como esse que se diz encher de escuridão o vago mistério do espaço.

Entre vós, porém, moços, que me estais escutando, ainda brilha em toda a sua rutilância o clarão da lâmpada sagrada, ainda arde em toda a sua energia o centro de calor, a que se aquece a essência d’alma. Vosso coração, pois, ainda estará incontaminado; e Deus assim o preserve.

Metei a mão no seio, e aí o sentireis com a sua segunda vista. Desta, sobretudo, é que ele nutre sua vida agitada e criadora. Pois não sabemos que, com os antepassados, vive ele da memória, do luto e da saudade? E tudo é viver no pretérito. Não sentimos como, com os nossos conviventes, se alimenta ele na comunhão dos sentimentos e índoles, das idéias e aspirações? E tudo é viver num mundo, em que estamos sempre fora deste, pelo amor, pela abnegação, pelo sacrifício, pela caridade. Não nos será claro que, com os nossos descendentes e sobreviventes, com os nossos sucessores e pósteros, vive ele de fé, esperança e sonho? Ora, tudo é viver, previvendo, é existir, preexistindo, é ver, prevendo. E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que não vê, por ter em dote dos céus a preexcelência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o tato não sente.

Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência. Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros, e os distanciados se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade.

………………………………………………………………………………………………………….

Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre nação explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta.

Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliarmos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações. Trabalhai por essa que há de ser a salvação nossa. Mas não buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a vós mesmos. Não é sonho, meus amigos; bem sinto eu, nas pulsações do sangue, essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos, antes de lhe ver os primeiros indícios no horizonte.[7]

O texto acima é um dos melhores exemplos de linguagem formal escritos em língua portuguesa no Brasil.  Produto de uma época e de uma classe ( a dos bacharéis de Direito) que tinha em sua formação o estudo do latim e das obras clássicas da retórica universal, tal discurso prima por falar através de circunlóquios e ornamento linguísticos a fim de lisonjear o seu público-alvo.  Destaquemos algumas marcas em relação a isto: o autor denomina a faculdade de “templo do ensino”; muitas vezes lança mão de sinônimos “raros” como “anexins” em vez de “provérbio” ou “dito popular”;  coloca o adjetivo antes do substantivo como em “jovens amigos meus”  e, por fim, faz uso constante da 2ª pessoa do plural como “não me ides ouvir de longe”.  Todos estes são expedientes típicos de uma época , de uma classe social que primava pela educação firmada na retórica aliada ao português clássico, semelhante ao de Portugal.[8]

Pelo fato de ser inacessível às pessoas comuns e não dotadas de uma educação formal e cultura erudita, tal registro culto da língua, desde a Semana de Arte Moderna de 1922 tem sido exageradamente apontado como insincero, pois muitas vezes é tomado como algo semelhante à “línguagem de políticos” que falam “bonito” para seduzir o povo a fim de obter poder e lucrar.  Na verdade não são poucos os que usaram a retórica como meio de “engambelar” os mais humildes, mas, o que dizer de Rui Barbosa, talvez o maior propagador deste tipo de retórica no Brasil? Ele foi patriota na prática, além de anti-escravagista, defensor da república, bem como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras?[9]  Com isso, o que se pode tomar como sua defesa, é que ele talvez tenha feito mais pelo povo brasileiro do que  muitos que tomaram o seu modo de discursar como alvo de zombaria, além do que, a própria fala formal e culta, sofre com a influência de sua época e do contexto em que ela é realizada.  Daí que, nos dias de hoje, tal modalidade da língua é menos ornamentado e mais direto, talvez por influência de uma educação menos formal e descompromissada com a disciplina do tipo militar. Mas que discursos deste tipo têm validade no âmbito da cultura brasileira e que são representantes do nosso modo de ser tanto quanto outros, isto é certo.  A norma culta tem sido ora criticada, ora endeusada.  Na verdade, ela é uma das muitas modalidades de uso da língua e como todas as outras, ela sofre com a evolução da cultura.

Diferente do registro culto da língua, está a fala coloquial, que é aquela usada nas conversas.  Trata-se de um uso mais direto e claro do falar, sem a preocupação em “polir” a língua com efeitos retóricos.

Chupeta X Delegado

Como parar Chupeta, o ponta mais endiabrado de Itaparica? Ensaboado, era uma espécie de Garrincha das babas (pelada na Bahia). Infernizava, atazanava e humilhava os adversários. Os laterais tinham insônia na véspera dos jogos e muitos alegavam contusões minutos antes de entrar em campo. Para os baianos, uma lenda. E a certeza de que apenas um jogador seria capaz de enfrentá-lo de igual para igual: Delegado.

- Mas sozinho, nunca! – foi logo avisando o zagueiro, que convocou para a missão conjunta Compadre Edinho, dois metros de pura malvadeza.

Compadre Edinho era daqueles beques tipo Odvan, zagueiro-zagueiro! A tesoura voadora era a jogada mais técnica de seu repertório e nas súmulas não há registro de uma viagem perdida de sua parte. Brucutu, nunca teve medo de cara feia e não ia se intimidar com um jogador de apelido Chupeta. Aceitou o desafio. Delegado era famoso na região mas para quem ainda desconhece a razão do apelido, ele explica.

- Por meu eficaz policiamento dentro da grande área! – revelou, às gargalhadas, João Ubaldo Ribeiro.

E as risadas do escritor baiano dominaram boa parte da conversa com a orgulhosa equipe do A Pelada Como Ela É, em seu apartamento, no Leblon. Cada lembrança, muitas gostosas gargalhadas! Mas daquelas acompanhadas de falta de ar e lágrimas. Quando lembrou-se de uma outra zaga histórica, nem se fala, riu tanto que precisou levantar-se para respirar melhor.

- O goleiro Nego Tóia, eu e Chico Gordo! Um trio defensivo inesquecível! O Nego Tóia parecia um lutador de sumo. Só tinha medo do chute do Compadre Edinho, mas com esse ninguém ficava na barreira. Pênalti, então, nem se fala! Os goleiros só faltavam se esconder atrás da trave – recordou.

João Ubaldo estava feliz de verdade. Lembrou o tempo em que jogava em cima de um coreto e onde mais tivesse espaço para correr atrás de uma bola de borracha ou de meia. Apesar de vascaíno contou com orgulho sobre sua boa fase no Flamenguinho do Rio Vermelho e de suas arrancadas como ponta, no início da carreira, até se casar aos 21 anos, perder o fôlego e “virar um senhor”.

- Casei muito moço, assumi responsabilidades e parei por um tempo. Cansei cedo da ponta, mas corria muito, era brioso e tenho certeza que o Dunga gostaria do meu futebol – brincou.

Quando retornou aos campos se assumiu como zagueiro. Se comparava a um Junior Baiano piorado, mas na Baba da Coroa, na Praia de Itaparica, fez grandes apresentações. Atualmente, o descanso de tela de seu computador exibe esse cenário, onde jogou e viveu momentos de glória contra os veranistas. Em vão, tentou encontrar uma foto da época. A Baba da Coroa não tinha regras e uma vez ou outra estipulava-se lateral quando a bola caísse no mar. Quem chegasse ia jogando, não havia marcação de área e muito menos faltas. Os jogos iam até o anoitecer e, sem refletores, eram iluminados pelo luar.

- Eram os chamados bons tempos! – suspirou. E prosseguiu inspiradíssimo: – Pelada é especial por sua informalidade, caráter democrático e educativo. Pelada é um microcosmos da vida!

Tantas lembranças, despertaram a inspiração. Mas a curiosidade é geral. Afinal, quem venceu o grande desafio, Delegado?

- Tentamos de tudo, até artes marciais. Nossa última alternativa foi areia nos olhos, mas mesmo assim Chupeta se desvencilhava com extrema facilidade. Ela era um notável driblador – contou, morrendo de rir.

Após o duelo, há dezenas de anos, Chupeta enfrentou problemas com álcool, fez teste em clubes baianos mas desistiu da carreira após ser lesado por empresários seguidas vezes. A última vez em que foi visto repousava suas canelas destroçadas numa rede gostosa de Itaparica enquanto lia para os filhos trechos do livro de um tal João Ubaldo Ribeiro, sem saber se tratar do antigo rival. E comentava, encantado: “Esse caboclo é uma espécie de Garrincha das letras”.[10]

Apesar de ser apresentada por escrito, esta crônica de Ubaldo Ribeiro alguma variantes do resgistro coloquial da língua portuguesa e alguns elementos são marcantes, como por exemplo o próprio fato de se transferir para a escrito momentos de uma conversa, que estão assinalados pelo travessão e do discurso direto.  Além disso, as personagens, com a excessão do próprio João Ubaldo inventa uma personagem com o seu nome,  são tratadas pelos apelidos, o que serve para revelar a informalidade da linguagem.  Isto também se revela pelo uso de gírias como “pelada”, “cara feia”.   Assim, este nível de linguagem parece ser o mais adequado para o que está sendo tratado: histórias do futebol.

Quando a linguagem desce a um nível mais baixo, incluindo aí , por vezes o palavrão, a falta de sutileza ao tratar da intimidade das pessoas e total descuidado com a polidez e a educação, o que inclusive reflete no mal uso da gramática, então os sociolinguístas adjetivam tal nível como o registro vulgar.  No exemplo abaixo, temos exemplo da linguagem em tal registro, trata-se de uma conversa( gravação feita pela polícia) entre um artista e um traficante de drogas.

Amizade criminosa

“Cinco de maio – Belo é acusado de envolvimento com o tráfico de drogas. A denúncia é baseada em gravações feitas pela polícia de telefonemas entre o cantor e o traficante Vado, da favela do Jacarezinho.

Onze de maio – Depois de negar que conhecia o traficante e afirmar que nunca teria falado com ele, Belo diz que vai provar sua inocência: “Eu sou inocente de tudo isso”, afirmou o cantor.

Doze de maio – O Fantástico mostra trechos de duas gravações telefônicas feitas pela polícia. Na conversa, o traficante, que se apresenta como “Bebeto”, pede dinheiro emprestado para comprar drogas – “tecido”, na linguagem do tráfico.

Belo: Vinte e cinco que você tem que dar?

Bebeto: É. Mas ele falou que até vinte e cinco ele deixava, entendeu? Porque o tecido que vai vir é de primeira qualidade e eu não posso perder, se eu perder essa oportunidade, aí vai ficar ruim pra mim, entendeu?

Belo: Tá certo.

Bebeto: Cinco ou dez já adiantava. Você vê aí. Te ligo mais tarde?

Belo: Me liga aqui em casa.

O cantor mostra interesse por um fuzil AR 15 – “tênis”, na linguagem do tráfico.

Bebeto: Tá doido, véio?

Belo: Pra casa mesmo.

Bebeto: Mas pra casa tem tênis melhor, mais tranqüilo, entendeu?

Belo: (rindo) Quero um pra deixar estampado na parede.

Bebeto: ( ri) Tá louco, meu véio?

Vinte e oito de maio- Belo continua negando ter mantido a conversa , mas peritos da Unicamp confirmam: a voz é mesmo do cantor.

Vinte e nove de maio – A polícia indicia Belo por associação com o tráfico de drogas. É decretada a prisão preventiva do pagodeiro.

Cinco de junho – Depois de uma semana foragido, Belo se entrega à polícia.

Doze de julho – O cantor consegue um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal e é libertado.

………………………………………………………………………………………………….

O Fantástico teve acesso a uma terceira gravação telefônica, ainda inédita, e ao único depoimento dado pelo cantor até agora na Justiça, também inédito. Comparando as gravações com o depoimento, surgem várias contradições: a principal delas: a relação de intimidade entre o cantor e o traficante.

O DEPOIMENTO

“… Cientificado da acusação, o réu, interrogado, respondeu que não são verdadeiros os fatos da denúncia; que nada sabe acerca dos fatos da denúncia; que não conhece os demais acusados…”.

A LIGAÇÃO

………………………………………………………………………………………………..

A ligação inédita cita uma troca de “presentes” e o nome de mais um pagodeiro famoso: Marquinhos, do grupo Sensação:

Bebeto: O Marquinho que veio aqui foi o do Sensação.

Homem: Do Sensação, pô.

Bebeto: Veio aqui, velho.

Homem: Marquinho do Sensação.

Bebeto: Veio, veio. Marquinho mente pra c***. Falou que foi aí, que falou com você.

Homem: É, mentiroso pra caramba. Falou que você deu presente pra ele e o caramba.

Bebeto: Que eu dei presente pra ele?

Homem: Eu falei: “Você não tem essa moral não. Bebeto é meu parceiro, cara”.

Bebeto: Então, dei nada.”[11]

Nota-se em tal tipo de registro uma total despreocupação com a gramática e com o decoro.  Exemplos disto se vê na presença de palavrões; na pronúncia propositalmente incorreta de palavras como  “véio”, “pô”; na total despreocupação com a gramática em frase como “Mas pra casa tem tênis melhor, mais tranqüilo, entendeu?”.  Deste modo, “vulgar” tem um sentido depreciativo de “grosseiro”, “chulo”.

REGISTRO REGIONAL

Apesar de ser ficcional, o texto abaixo revela o modo de falar típico de uma região brasileira e incomum nas demais regiões.

O Analista de Bagé  por Luis Fernando Verissimo

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu…

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha…

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas…

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

— Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira… Mas acabou concordando.

— Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?

— Bem — disse o home — é que nós tivemos um desentendimento…

— Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

— Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

— Não fala comigo!

— Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

— Ela tem um problema de carência afetiva…

— Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

— Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e…

— Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

— Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

— Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

— O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

— Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

— Eu?

— Ela. Tu espera na salinha.

Texto extraído do livro “O gigolô das palavras”, L&PM Editores – Porto Alegre, 1982, pág.

Nota-se aqui a presença de uma modalidade da fala típica do interior do Rio Grande do Sul: gírias regionais, sintaxe e entoação das palavras são marcas de tal modo de expressão.

REGISTRO PROFISSIONAL

Abaixo vemos uma modalidade de discurso que entaticamente uso o jargão de uma área profissional: o economês.  Trata-se de um uso formal da língua, a norma culta com boas doses de termos técnicos de uma determinada área profissional.

ENTREVISTA COM O MINISTRO DA FAZENDA GUIDO  MANTEGA

Governo quer setor privado financiando o longo prazo .  Por Luciana Otoni e Ribamar Oliveira, de Brasília 20/07/2010   O Valor

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o custo de equalização das taxas de juros do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), executado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é de R$ 5 bilhões ao ano e que esses dados estão contabilizados no Orçamento da União, na rubrica de subsídios financeiros. Mantega negou que o governo esteja estudando um novo aporte de recursos para o BNDES e afirmou que, agora, o banco terá “que andar com as próprias pernas”. O ministro antecipou que o governo estuda novos mecanismos para estimular a entrada do setor privado no financiamento de investimentos de longo prazo. Uma alternativa em estudo é o incentivo à emissão de debêntures para empreendimentos específicos.

Para Mantega, a maturação dos investimentos realizados nos últimos anos permite que o Brasil cresça, sem pressão inflacionária, entre 5,5% e 6% ao ano. Ele estima um crescimento de “um por cento ou um pouco menos” no segundo semestre deste ano, e projeta que, no segundo semestre, o Brasil estará em ritmo de expansão de 5,5%. Ele não quis falar sobre a decisão do Copom de amanhã, mas afirmou que, em sua opinião, a economia brasileira “já entrou no trilho de um crescimento sustentado”. Mantega não acredita que vá sobrar receita com o maior crescimento da economia previsto para este ano. “”Mas se sobrar, ela não será gasta”, afirmou. A seguir, trechos da entrevista que o ministro concedeu ao Valor.

Valor: A desaceleração do ritmo de crescimento da economia já indica que é possível parar o processo de elevação da taxa de juros?

Guido Mantega: Isso quem tem que responder é o Banco Central. O que posso dizer é que a economia brasileira já entrou no trilho de um crescimento sustentado. O que estava ocorrendo no início do ano era o resultado do estímulo que foi dado para a economia se recuperar da crise. Com os estímulos, a economia recuperou o espaço perdido durante a crise. No ano passado, o país praticamente não cresceu. Nós retomamos aquele patamar anterior à crise e a economia tende a estacionar num patamar de crescimento sustentado, de 5% a 6%, que é o que nós planejamos. Tem aqueles analistas de plantão que se entusiasmam com as próprias análises, que diziam que a economia estava superaquecida. Eu dizia que estava aquecida e não superaquecida, que iríamos retirar todos os estímulos e a economia voltaria a um patamar mais baixo. Foi o que aconteceu. Como os estímulos iriam acabar, a população antecipou as compras e, por isso, o resultado do primeiro trimestre incorporou uma parte do segundo trimestre. Isto significa que nós esperamos um segundo trimestre com um crescimento bem inferior aos 2,7% do primeiro trimestre.

Valor: Qual é a sua estimativa para o crescimento do segundo trimestre?

Mantega: Estimo que de um por cento para baixo. Mas lembrando que dos 2,7% do primeiro trimestre, uma parte pertenceria ao segundo trimestre. Em março, as vendas de automóveis dispararam; em abril, houve uma queda; em maio, uma pequena recuperação e, em junho, as vendas já atingem o patamar médio que devem ficar. Nós devemos comemorar a sólida recuperação do Brasil da crise internacional. Este ano, o Brasil vai crescer 6,5% a 7%, o que será, entre os grandes países, o segundo maior crescimento do mundo, perdendo apenas para a China. Esse é o maior crescimento desde 1986. Porém, como a população está crescendo muito menos, será o maior crescimento do PIB per capita dos últimos 30 anos. A nossa previsão é que o crescimento que será registrado no segundo semestre deste ano, anualizado, não dará mais do que 5,5%, que é uma taxa muito boa para o Brasil.

Valor: O mercado futuro de taxa de juro está apontando para uma redução em relação às estimativas anteriores.

Mantega: O DI para 2011 só hoje está caindo 0,36. Na semana passada, ele deu uma boa despencada.

Valor: Alguns analistas já acreditam em elevação da Selic menor do que 0,75 ponto pelo Copom. Essa também é a sua expectativa?

Mantega: Eu não tenho expectativa nenhuma em relação ao Copom. O BC é autônomo e faz a sua análise. Mas o DI 2012 já deu uma subidinha… É que também depende um pouco da economia internacional, que teve alguns fatos adversos nesses últimos dias. Irlanda, Hungria etc., tudo isso às vezes mexe. Não sei o que vai acontecer com a taxa de juros, nem quero saber, mas com a inflação está acontecendo aquilo que eu também previa no início do ano. E, mais uma vez, os apressadinhos disseram que nós estávamos perdendo o controle da inflação. Eles faziam uma correlação entre superaquecimento e elevação da inflação. Nós dissemos que era choque de oferta, pois foram os alimentos que puxaram essa inflação. Mas tinha gente dizendo que era pressão de demanda…

Valor: Qual é a sua previsão para o comportamento da inflação neste resto de ano?

Mantega: O IPCA zero em junho foi um choque na cabeça desses analistas, que tiveram que refazer todas as contas. Até o Focus (boletim publicado pelo Banco Central com estimativas do mercado) que é lento, já reviu para baixo. Ele chegou a estimar 5,6% de inflação para este ano, o que era evidentemente um equívoco. Como ele revisa a cada semana, ele vai acabar acertando no final do ano. É mais ou menos como aquele relógio quebrado que, em algum momento, acerta a hora. Tem uns analistas que são que nem relógio quebrado: uma hora eles acertam.

Valor: Mas a inflação do setor de serviços não está resistindo muito?

Mantega; Quando a economia cresce 5,5% a 6%, ela tem uma inflação. É normal. Por isso, a nossa meta de inflação não é zero, não é dois por cento. Tem uma razão para isso. Existe uma certa inflação no Brasil. O problema é ela estar dentro da meta que nós estabelecemos. No sistema de metas, o governo diz para a sociedade qual é a inflação que será perseguida e acabaremos alcançando. Quando se tem um ano de atividade mais baixa, como no ano passado, é normal que a inflação fique abaixo do centro da meta. Quando se tem um ano de aquecimento salutar da economia, se tem uma inflação um pouco maior. O setor de serviços é o setor que mais sobe a inflação no momento de aquecimento. Mas ele vai para cima e vai para baixo também. Quando cai o nível de atividade, cai o preço. Mas isso não ocorre com os manufaturados, que podem ser importados. A inflação do setor de manufaturados é bem comportada, mesmo com o aquecimento da economia. http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/entrevista-de-guido-mantega  Acessado em 2/09/2010

Nota-se no texto acima, não só na fala do ministro Mantega , mas também na introdução feita pelos jornalistas que o entrevistaram, a presença constante de termos próprios do “economês”, “a linguagem dos economistas” como foi apelidada. Exemplos disto são muitos, destaquemos alguns: “equalização das taxas de juros”, que pode significar algo como equilibrar as taxas de juros em um mesmo patamar;  “aporte de recursos”, que signfica algo como “dar dinheiro para o Banco NacionaL de Desenvolvimento”;  “crescimento sustentado”, que na linguagem dos economistas pode ser algo como “o crescimento da economia que se mantem sem que o governo tenha que interceder”.

Em suma, o que vemos nestas variações  é o modo como a língua se maleabiliza possibilitando que o ser humano crie diferentes realidades e participe delas.  Além disso, apenas com estes poucos exemplos em uma única língua, é possível vislumbrar a pluralidade cultural e espiritual dos seres humanos, todos eles envoltos pela expressão linguística.  Daí, inclusive, a ciência que estuda as língua ter criado um ramo específico para estudar as variações sociais da língua: a Sociolinguística, que busca detectar todas as relações entre o desenvolvimento das sociedades e o uso da língua.  Tal ciência irá captar o uso da língua em relação aos diferentes momentos históricos, situações geográficas, posição dos membros de uma sociedade e a circunstância e o estado de espírito em que a pessoa se encontra (ambiente familar, profissional, íntimo).

BIBLIOGRAFIA

Bibliografia

ARAÚJO, Inês L.  Do Signo ao Discurso.Introdução à Filosofia da Linguagem. São Paulo, Parábola Editorial, 2004

ARAÚJO,  Claudio Gil S. Coração Acelerado. In: http://cienciahoje.uol.com.br Artigo publicado em em 16/06/2010 .Acessado em 20/09/2010

BAKHTIN, Mikhail.  Marxismo e Filosofia da Linguagem. 6ª ed. Trad M. Lahud e Y Viera.  São Paulo, 1992.

BARBOSA, Rui.  Oração aos Moços. 5ª ed. Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa, 1999

CHAUÍ, Marilena.  Convite à Filosofia. 5ª ed.  São Paulo, Ática, 1995

ECO, Umberto.  Sobre os Espelhos e Outros Ensaios.  3 ª ed. Trad. Beatriz Borges.  Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989.

———Tratado Geral de Semiótica.  4 ª Ed. Trad. A. P. Danesi e C.C. de Souza. São Paulo , Perspectiva, 2002

GARCIA,  Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. 13. ed., Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1986, pág. 28).

HEIDEGGER, Martin. O Ser e o Tempo.  Petrópolis, Vozes, 2000

HOUAISS, Antônio. DicionárioEletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.  São Paulo, Objetiva, 2001

MARX, Karl e F. ENGELS. A Ideologia Alemã. Trad. F. Müller.  SãoPaulo , Martin Claret, 2006

PEIRCE, Charles S. Semiótica. Trad. Trad. J. T. Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2000.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e filosofia; textos escolhidos. Trad. O. S. Mota e L. Hegenberg. São Paulo: Cultrix, 1972.

PESSOA, Fernando.  O Guardador de Rebanhos e outros poemas.  São Paulo, Círculo do Livro, s.d

RIBEIRO,João Ubaldo.In: A Pelada como Ela é. http://oglobo.globo.com/blogs/pelada/Sergio Pugliese.  Acessado em 02/09/2010

REDE GLOBO.  http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/Acessado em 02/09/2010

SAUSSURE, Ferdinand de.  Curso de Linguística Geral. 9ª ed. Trad. Chelini, J.P. Paes, I. Bliktein.  São Paulo, Cultriz, USP, 1969


[1] Lingüística e Comunicação(s.d., pág.123)

[2] Garcia  (1976, p. 146) retira estes conceitos de Mattoso Câmara Jr. e outros para dizer  que temos três tipos de contexto: “o verbal, o situacional e o da experiência (do emissor e do receptor)”  resume que, em sentido amplo , o termo se refere a qualquer ambiência onde esteja situada a frase.

[3] Houaiss(ver verbete referência, edição. eletrônica)

[4] Jakobson (s.d, 128)

[5] Gonzaga (

[6] Jakobson ( s.d,  123)

[7] Rui Barbosa ( 1999, p.II  )

[8] Não é por acaso que escritores modernistas como Oswald e Mário de Andrade se contrapuseram a esta “retórica de bacharéis” para realizar uma revolução cultural colocando o falar espontâneo do brasileiro como verdadeito representante da nossa cultura.

[9] In: http://www.casaruibarbosa.gov.br/ Acessado em 01/08/2010

[10] Ribeiro In: Pugliese (Site).

[11] Entrevista retirada do site do programa Fantástico da Rede Globo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s