4. Concordância e Verbos Impessoais

4 Tópicos Gramaticais.  A Concordância do verbo SER

   Quanto ao verbo SER, antes de tudo, é preciso relembrar que ele não possui um complemento verbal(um objeto).   Trata-se de um verbo que faz a ligação, ou seja, uma espécie de ponte entre o sujeito e o predicado.  Por exemplo, se alguém nos diz:  “Eu sou doente”, podemos transformar o verbo em um sinal de igual: “eu = doente” ou “doente = eu”.  A palavra doente não é exatamente um complemento do verbo, mas uma qualidade do sujeito, por isso recebe o nome não de objeto , mas de predicativo ( uma qualidade, um atributo de um sujeito.

 Em razão desta equivalência entre sujeito e predicativo propiciada pelo verbo ser,  os gramáticos não impuseram uma regra única à concordância do verbo com o sujeito; criaram, isto sim, uma regra múltipla levando em consideração a força ora de um ora de outro em termos de significação, podendo o verbo concordar ou com o sujeito ou com o predicativo, ou mesmo, com ambos de acordo com a vontade de quem está redigindo ou falando. 

Martins e Zilberknop, inspiradas provavelmente na gramática de Celso Cunha[1] criaram uma tabela de regras de concordâncias do verbo ser.  Assim, quem manda no verbo e chama a concordância para si é, primeiramente, os sujeitos que contêm pronome pessoal, depois os que encerram a idéia de ser humano e, por último, sujeitos que não encerram tal idéia e nem têm pronome.  Por exemplo: entre o predicativo muitos ao mesmo tempo e o sujeito Eu, quem manda no verbo é o sujeito, pois ele tem um pronome: Eu sou muitos ao mesmo tempo, em vez de Eu somos.  O mesmo aconteceria se houvesse um termo personativo no sujeito: Ricardo é muitas pessoas, os Paulos são uma pessoa só.

Outro exemplo:  na expressão: “o perigo seria as febres” nem o sujeito( o perigo) nem o predicativo (as febres)  contém a idéia de pessoa, portanto, tanto faz escrever o perigo seria  (concordando sujeito e verbo) como o perigo seriam as febres , concordando verbo e predicativo.  Porém, se no sujeito houver um pronome pessoal  ou expressão que traga a idéia personativa, a concordância será determinada  por um destes termos.  Vejamos as seguintes  expressões:

                             O perigo são os homens.

                             O Brasil, senhores, sois vós. (pronome + personativo senhores)

                             O homem é sofrimentos e alegrias. (personativo homem)

Nestes casos, respectivamente, as palavras: homens, vós, (ambas são núcleos do predicado) e homem  (núcleo do sujeito) expressam a idéia de pessoa, portanto, determinam a flexão verbal.

As autoras citadas, para facilitar, elaboraram o seguinte esquema para facilitar o conhecimento da concordância entre o verbo ser, o sujeito e o predicado:

sujeito                                                                   predicado

a) Não- personativo          +                Não-personativo  =  concordância facultativa

b) Personativo                  +                 Personativo         =  Idem

c) Personativo                   +                 Não-personatico = Concordância com o sujeito

d) Personativo                   +                 Pron. Pessoal      = Concordância com o pronome  

e)Não-personativo              +                Pron.Pessoal      =  Idem

f)Pron. Pessoa                    +                Pron. Pessoal      = Concordância com o sujeito

 

Eis os respectivos exemplos:

a) Isto é/ são vaias                    Na vida, nem tudo é flores/ nem tudo são flores

b) Aqueles escritores eram (era) uma só pessoa.

c) O homem é sofrimento e alegrias.             Estas garotas são uma jóia.

d) O acusado sou eu.

e)  O Brasil, senhores, sois vós(R.Barbosa)

f) Eu não sou ela.

 A hierarquia, portanto, é: 1º) Pronome pessoal como sujeito da oração; 2º)Pronome pessoalno predicado; 3º) Personativo ; 4º) Não-personativo.

Observações Importantes:

1) Quando o verbo SER é impessoal (nas indicações de hora, data, distância), evidentemente, ele não concorda com nenhuma pessoa, pois não há sujeito para verbos impessoais.  Portanto, ele concordará com  a expressão numérica que tem a função predicativa:

                             São cinco horas.

                              Hoje são trinta de abril e amanhã será 1º de maio.

                              É meio-dia agora e hoje é 31 de abril. (Nestes casos, as palavras meio-dia  e  dia  são predicativos, assim, o verbo Ser, impessoal, concorda com as mesmas) 

 2) Com o verbo SER pode ocorrer a concordância ideológica, irregular  ou também chamada de silepse[2]:

                                Os brasileiros somos um povo hospitaleiro.

                                Os alunos somos muito gratos ao senhor.

Nestes casos, o emissor da mensagem se inclui entre os brasileiros, entre os alunos, por conseguinte o verbo pode concordar com tal idéia para enfatizar tal inclusão.  É como se estivesse implícito o pronome Nós na expressão.

3)  Nas expressões  é muito, é pouco, é mais de, é tanto, especificando preço, peso, quantidade, o verbo fica no singular.  Ex.: Duas semanas não é muito para quem tanto esperou.

 4) Conforme vimos, o verbo SER pode ser impessoal quando indica hora, tempo, etc.  O mesmo ocorrerá com os verbos haver, fazer, soar, passar, dar:

         Há dois anos que não passo aqui.

            Passa de três o tempo que ela está no avião.

                Bateu cinco horas , já?  Deu cinco horas, já?

 

5) O verbo haver com o sentido de existir  é impessoal:  bons livros na biblioteca(não há sujeito).  Porém, o verbo existir é pessoal e deve ser flexionado: existem bons livros na biblioteca (sujeito: bons livros).

 6) É comum os verbos haver  e fazer aparecerem  erradamente grafados na 3ª pess. do plural.  Bechara[3] observa que isso acontece porque o falante tende a tomar tais plurais como sujeito daqueles verbos.  Contudo, verbos impessoais não têm sujeito. Compare:

Certo:  houve enganos lamentáveis.                     Errado: Houveram enganos lamentáveis

             Faz quinze dia que ela partiu.                               Fazem quinze dias que ela partiu.

             Pode haver enganos.                                              Podem haver enganos.

             Deverá fazer três meses agora.                               Deverão fazer três meses agora.

Observa-se nos dois últimos exemplos que haver  e fazer  quando impessoais, influenciam os verbos que lhes servem de auxiliar.

 

4.1 Exercícios.  Corrija as frases abaixo, se necessário.

 1.Houveram vários debates sobre o assunto.

  2. Haviam candidatos despreparados.

 3. Fazem três anos que não vejo Paula.

 4. Fizeram dois anos que me formei.

 5.  Parecem haver boas razões para que ela não venha.

 6. Estão fazendo três dias  que a chuva começou.

 7. Existem coisas mais sérias a pensar.

 8.Existiam razões que a própria razão desconhecia.

 9. Haviam muitas razões para lamentar.

 10.  Fazem dias agradáveis na primavera.

 11. A esperança, minha gente, é eles.

 12. Noventa quilos é muito para quem se diz magro.

 13. Ainda existe pessoas sinceras.

 14 Os latino-americanos somos uma gente muito alegre.

 15. Costumam fazer invernos rigorosos no sul do país.

 16.  O homem são cinzas.

 17. Luiz era as esperanças da família.

 18..  Ele é forte, mas não são dois.

 19. Hoje é dois ou três de março?

 20. Quem manda aqui é eu, quem obedece é vocês!

    BIBLIOGRAFIA

BECHARA, Evanildo.   Liçoes de português pela Análise Sintática. 10 ª ed; Rio de Janeiro, Griffo, 1976

CUNHA, Celso e Lindley Cintra.   3 ªed. Nova Gramática do Português Comtemporâneo.  Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985

ZILBERKNOP, Lúbia S. e Dileta MARTINS.    Português Instrumental.  18ª ed.  Porto Alegre, Sagra- DC Luzzto, 1996

 Resposta 2.4.1 Exercícios.  Corrija as frases abaixo, se necessário

 1.Houve vários debates sobre o assunto.

  2. Havia candidatos despreparados.

 3. Faz três anos que não vejo Paula.

 4. Fez dois anos que me formei.

 5.  Parece haver boas razões para que ela não venha.

 6. Está fazendo três dias  que a chuva começou.

 7. Existem coisas mais sérias a pensar. (CORRETO)

 8.Existiam razões que a própria razão desconhecia(CORRETO).

 9. Havia muitas razões para lamentar.

 10.  Faz dias agradáveis na primavera.

 11. A esperança, minha gente, são eles.

 12. Noventa quilos é muito para quem se diz magro.(ver obs.)

 13. Ainda existem pessoas sinceras.

 14 Os latino-americanos somos uma gente muito alegre. (concordância por silepse)

 15. Costuma fazer invernos rigorosos no sul do país.

 16. O homem é cinzas.

 17. Luiz era as esperanças da família.  (correto)

 18. Ele é forte, mas (ele) não é dois.

 19. Hoje são dois ou três de março?

 20. Quem manda aqui sou eu, quem obedece são vocês!

 Notas bIbliográficas

     [1] Ver Martins e Zilberknop (1996, p.342) e CUNHA E CINTRA(1985, P. 494)

[2] Cf. Houaiss ( 2001, ver verbete) silepse  -figura pela qual a concordância das palavras na frase se faz segundo o significado, e não de acordo com as regras da gramática (p.ex., um bando de pessoas gritavam palavras de ordem à frente do prédio; minha família, que chegou hoje do Nordeste, foi dormir cedo, muito cansados.

[3] BECHARA (1976, P. 31)        Fim dom tópico 2.4 A Concordância do verbo SER    

Uma resposta para “4. Concordância e Verbos Impessoais

  1. Muito didática a tabela elaborada pelas autoras para o verbo ser. Porém, não está exposto a situação quando o sujeito não é personativo e o predico é personativo. Por exemplo: “As vozes são do Raul” ou “As vozes é do Raul”?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s