6. Concordância Verbal e Infinitivo

 

2.6 Concordância Verbal e Infinitivo

 As regras de concordância  no que diz respeito ao Infinitivo em Língua Portuguesa necessitam de uma explicação sobre o próprio funcionamento morfológico e sintático do mesmo. 

O que todos nós sabemos “desde criancinha” é que o Infinito é a forma que representa o verbo, por isso dizemos frases como “o verbo SER é irregular e o ALUGAR é regular”, ou seja, o Infinitivo  é o modo ao qual nomeamos um verbo em português..  Sabemos, além disso, que ele é uma das formas nominais dos verbos, ou seja, o infinitivo, tanto quanto o gerúndio e o particípio, se assemelha a um nome ( o nome de uma ação ou estado). Por exemplo: – qual é o nome daquele estado em que a pessoa vem para a vida?  Resposta: – Nascer!!

Ora, como forma nominal, a rigor, ele poderia ser flexionado em gênero e número (menino, meninas etc.), por isso os gramáticos concluem que o infinitivo é uma “forma nominal do verbo que nomeia uma ação ou estado, mas que é neutra quanto às suas categorias gramaticais tradicionais, ou seja, tempo, modo, aspecto, número, pessoa” .[1]  Fato é que  ele é neutro em tudo, ele não varia em gênero e número tal qual boa parte dos nomes.  Entre as formas nominais dos verbos, apenas o partciípio apresenta tal variação ( menino ferido, meninas feridas etc.).  O infinitivo, porém, é totalmente neutro.  Isto também soa estranho.

Todavia, o infitivo funciona sim como um substantivo sintaticamente. Veja, por exemplo, os casos a seguir:

 O amar faz bem para a saúde. (sujeito).

Ele não conseguia pensar de manhã. (objeto direto)

Vivo para amar as pessoas(Objeto indireto)

Amar é viver  (predicativo).

Ele não é digno de amar você. (complemento nominal)

A tábua de lavar roupa está limpa. ( adjunto adnominal)

2.6.1 Concordância do Infinitivo Impessoal

Quando o Infinitivo não é flexionado, tal qual nos exemplos acima, ele é denominado gramaticalmente de Infinitivo Impessoal.

Neste caso, podemos retirar uma regra de concordância verbal.  Ora, ao funcionar como sujeito simples, como no primeiro exemplo, cujo núcleo é o infinitivo amar, segue-se a regra básica: sujeito simples no singular, verbo no singular : faz.

Contraditoriamente porém, Cunha e Cintra apontam que: “Quando os sujeitos são dois ou mais infinitos, o verbo também fica no singular[2], contrariamente à regra básica: Veja os exemplos de grandes escritores citados pelos gramáticos:

  Olhar e ver era para mim um recurso de defesa. ( J. Lins do Rego)

Vê-lo e amá-lo foi obra de um minuto.

 Paciência!  Se grandes escritores assim escreveram, assim se torna a gramática.  A regra não é clara, mas é válida. 

 Além do mais (mais paciência ainda,irmão!!!), os mesmos autores nos fazem notar que “o verbo  pode ir para o plural quando os infintivos exprimem idéias contrárias”[3]

 

Em sua vida, à porfia,

Se alternam rir e chorar. (Alberto de Oliveira)

2.6.2 Concordância do Infinito Pessoal

 Ocorre que há um idiotismo ou Idiomatismo no Português: “o infinitivo pode expressar pessoa e número, nas formas que são chamadas infinitivo pessoal ou flexionado.”[4]

O que é isso?

Idiotismo, conforme Houaiss, é “traço ou construção peculiar a uma determinada língua, que não se encontra na maioria dos outros idiomas (p.ex., o infinitivo pessoal do português, ou a resposta afirmativa com o próprio verbo da pergunta, como: -Você vai? – Vou); idiomatismo.”[5]

Deste modo, o infinitivo que é uma forma nominal e, portanto, inflexionável, passa a ser também, contraditoriamente, uma forma nominal flexionável, o que, em termos lógicos, é um absurdo. Todavia, se grandes escritores assim determinaram, assim os gramáticos adotaram tal ato linguístico.  O infintivo pessoal, portanto, é válido, ele existe quando “é flexionado de acordo com a pessoa do sujeito , ora não é flexionado e se confunde com o impessoal.” Ou seja: ele pode ser flexionado ou não.

Exemplo: Solicitamos a V Senhorias o favor de enviar/enviarem  os documentos.

 Com a pessoalização do infinitivo surgem dúvidas em temos de concordância, como estas apontadas por Nogueira Duarte:

 “Tenho coisas a fazer ou a fazerem”?

“Os técnicos estão aqui para resolver ou para resolverem”?

 O autor prefere o singular nestes casos e sua escolha se dá, certemente, pelo fato de que o infinitivo não deveria de ser flexionado, todavia, boa parte dos gramáticos optam pelas duas formas. É facultativo.

Cremos que os gramáticos aceitam ambas as opções por seguirem duas lógicas paralelas:

No caso “coisas a fazer”, segue-se a idéia de que o infinito é uma forma neutra, sem flexão; no caso de “coisas a fazerem”  segue-se a regra do sujeito no plural é igual a verbo no plural.

Uma das grandes dificuldades nisto tudo é saber quando devemos usar o infinitivo flexionado, pois os próprios gramáticos, em alguns casos, divergem entre si.  Napoleão Mendes de Almeida[6], em sua gramática, nos dá uma bela lição sobre isto.

 

Bibliografia

ALMEIDA, Napoleão Mendes.   Gramática Metódica da Língua Portuguesa.  30 ed. São Paulo, Saraiva, 1981

CUNHA, Celso e Lindley Cintra.   3 ªed. Nova Gramática do Português Comtemporâneo.  Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985´

HOUAISS. Antônio. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. São Paulo, Objetiva, 1981

NOGUEIRA, Sérgio.  Língua Viva.  Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 1988

Fim do item 2.6 Concordância e Infinitivo

 


[1] Houaiss, verbete Infinitivo

[2] Cunha e Cintra ( 1985, p. 499)

[3] Idem.

[4] Houaiss, ver verbete infinitivo

[5] Idem, verbete idiotismo.

[6] Veja o debate sobre isto no capítulo: LXI Particularidades Sintáticas. ( Almeida, p. 1981, 540)

 

 

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