1. Introdução – A Importância da Linguagem

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  1.1 A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM           

 Imagine um mundo sem linguagem . É válido asseverar que se trata de um território com toda sorte de objetos e seres: montanhas, água e animais; mas evidentemente trata-se de um território sem seres pensantes e sem os objetos inventados por eles, uma vez que a principal diferença entre certo tipo de ser, o humano,  e os demais seres é justamente a faculdade da linguagem, a capacidade de se comunicar de maneira complexa.  É a linguagem que proporciona a identidade do homem ou, como bem disse Heidegger: “A linguagem é a casa do Ser”[1], o lugar onde a homem habita e dali toma consciência e gera sentido para a vida  Dito em outras palavras:  é através dela que o homem cria o seu próprio mundo, transformando o caos em cosmos, enfim: a linguagem permite que o homem seja e desenvolva a sua própria humanidade.  Por esta razão, podemos dizer, a linguagem é a mais importante faculdade humana, é ela que funadmenta a humanidade.

 Como surgiu a linguagem?

 Deixando de lado a explicação religiosa do Cristianismo, onde se diz que “primeiro era o verbo”, que não cabe em um artigo de verve cientìfica,  vale notar que a filosofia e a ciência especulam três teses diferentes[2]:

1) a linguagem nasce pela imitação de sons da natureza;

2) por imitação de gestos e pouco a pouco estes foram acompanhados de sons;

3) a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, etc., fizeram os homens se reunir e criar um vocabulário rudimentar, que com o tempo se tornou mais complexo.

Nenhuma destas hipóteses, porém, foi confirmada e não há nada de conclusivo a respeito. A Arqueologia, embora consiga detectar aprimoramentos na estrutura física do cérebro humano, não demonstra como se desenvolve a capacidade de pensar, pois a linguagem se constitui como algo simbólico, que não possui essencialmente uma substância física.[3]  Como, aliás, explica bserva Bakhtin, Pierce e tantos outros[4], a mente é composta de signos  se  os eliminarmosse não haverá pensamento e a própria cinsciência inexistirá, restando apenas a fisiologia e a química do cérebro, o que nada traz de relevante para quem queira conhecer a linguagem no âmbito estrito da cultura.  Daí, inclusive, a principal dificuldade de se descobrir como surgiu a linguagem.

 Por conta disto, uma investigação que busque conhecer o funcionamento e o modo como a linguagem proporciona o acesso à realidade deve se dar no plano dedutivo[5].  Vejamos.

Imaginemos novamente um mundo sem linguagem.  Imaginemos  a seguir um fato a gerar uma evolução na cadeia biológica naquele mundo: em um certo momento, um dos animais ali presentes, possivelmente um primata desenvolvido (alguém que veio antes do Homo Sapiens) fez um traço ou um desenho em uma rocha, talvez um gesto com as mãos ou quem sabe desferiu um grito ou emitiu um som qualquer para se referir a determinado objeto ou ser: um pedra cortante, um animal por exemplo.  Hipoteticamente, se outro primata também estaleceu em seu cérebro a relação entre grito, desenho, gesto e o tal objeto, sobretudo se isto aconteceu de maneira repetida, podemos dizer que aí nasceu o primeiro signo (uma palavra, um desenho, um gesto).  Em termos linguísticos é válido dizer que nasce um substantivo que seja, o nome de uma coisa. Desenvolveu-se, além disso, uma função básica da linguagem: a nomeação ou nomenclatura.

Seguindo pela imaginação, pensemos neste animal ou “pré-homem” designando os demais objetos e seres com diferentes desenhos, gestos, gritos: o chão da caverna talvez, ou a parede, o teto, a sua perna, o outro, a fêmea, o macho, a luz do dia, a si próprio, a um outro animal e assim por diante. Muitos nomes surgem com isto e há uma espécie de nomeação com signos do mundo concreto, ou seja, começa a ser criada uma dualidade entre o mundo físico e o mundo simbólico, cada signo correspondendo a um objeto ou ser.

Seguindo tal ilustração, pensemos em uma situação de medo, em que alguma árvore estaria a desabar ou algum predador viria a se aproximar, um dos então “pré-homens”soltou um grito ou fez gestos e os demais entenderam que era para designar uma ação: correr, se esquivar, fugir, atacar, se defender, etc. Surge então o primeiro verbo, para se referir a  uma ação ou estado.  Em decorrência disto, é possível também idear o nome do primeiro sentimento ou estado de espírito: luto, pena, compaixão, amor, solidariedade, amizade, etc., em acordo com o sucedido, e se houve o sentimento de luto, passa haver igualmente uma referência a um ser que não tem mais um corpo vivo, daí nomear-se seres que existem apenas na lembrança ou, em termos religiosos, nas crenças:  espiritos, deuses,etc.  Portanto, a nomeação se dá em um plano mais profundo, pois agora elementos abstratos, sem corpo visível, servem de referência para os signos, ou seja, “ideias puras”, que não têm um corpo físico correspondente passam a servir de referência para os signos.

 É válido pensar, além do mais, que a nomeação de seres, objetos e idéias em tal nível, por um lado, possibilitou o surgimento do direito como instituição social, pois para alguns daqueles “macacos evoluídos” abriu-se a possibilidade de afirmar: “tal objeto é meu”, “tal caverna é tua”(direito de propriedade), ou mesmo indicar com um traço ou uma seta que determinado objeto está ligado a tal indivíduo; paralelamente, por outro lado, houve um desenvolvimento da própria linguagem, pois com o surgimento do verbo e o desenvolvimento das idéias surgiu a proposição, ou seja, um predicado a ser atribuido a um sujeito e a formação de conceitos (x é x porque tem as características: a, b e c); daí desenvolceu-se a capacidade de raciocínio, (se “x” é igual a “y” ,  se “y” é igual a “z”, então “x” é igual a “z”). E, além disso, se de fato um certo objeto não pertencer a determinado ser e ele disser que é o dono do mesmo, pode assim  ter surgido a capacidade de enganar ou de mentir, de usar as palavras para simular uma realidade, tal qual propositalmente ocorre na literatura e na lógica. Assim, a linguagem ganha a característica lúdica de simular a realidade.

Da união coerente de diferentes frases sobre determinado assunto, fazendo referência a determinado conceito e situação social, nasce um texto e na diferenciação entre um objeto e outro nasce a teoria: “este objeto se chama faca e é diferente daquele que se chama machado, ambos são cortantes, mas para cortarmos árvores, o melhor é que se use o machado, ele é mais adequando para o corte de objetos grandes, como você poderá constatar na prática, portanto, pegue o machado e corte agora esta árvore”. 

Repare que, na última frase (em itálico), houve uma ordem para usar o machado, as palavras serviram para criar uma ação, uma intervenção do homem na realidade. Não se trata apenas de nomear algo, representá-lo na mente, mas sobretudo de produzir algo, fazer a realidade acontecer.  Vejamos outro exemplo: estou no cartório ou num altar de igreja, perante meu conjuge, então a uma pergunta do juiz ou do padre respondo que sm, desejo me casar, então a palavra estará servindo para interferir na realidade, criar uma nova realidade para mim e para meu conjuge. O que se conclui, a partir daí é que a linguagem não serve tão somente para nomear e representar , ela é também um modo de agir, de fazer o homem criar e recriar a realidade.[6] Este agir proporcionado pela linguagem é amplamente usado na sociedade moderna.  Pense, por exemplo, em milhares de juristas usando a palavra para modificar a vida das pessoas, pense no modo como contratos, investimentos são feitos, pense nas milhares de ordens e autorizações dadas diariamente.  Em todos estes casos, a linguagem serve, sobretudo, para criar realidade ou interferir naquela já institucionalizada.

 É fato que a ilustração acima é fantasiosa, pois não podemos saber se foi nesta sequência que as línguas evoluiram e nem se os exemplos acima cobrem todos os usos da linguagem, mas o que está dito acima demonstra que, em paralelo à criação da linguagem, há a criação da consciência humana e da realidade, ou dito em outras palavras: o homem e o seu mundo ( a cultura).  Assim temos ali: a nomeação ou nomenclatura, a referência a objetos existentes e a ideias em geral, o estabecimento de proposições verificáveis ou não, o uso literário das palavras, os jogos de linguagem, a criação de novas realidades.  Este agrupamento resume a maior parte dos usos da linguagem nos dias de hoje.

O que se pode concluir, enfim, a partir disto é que o homem adquiri consciência de si e da realidade porque cultivou e aprimorou a faculdade da linguagem.  Com ela pode acessar a realidade, contruí-la sob a égide da cultura, bem como nela interferir e  transformá-la.  Em suma, o homem começou a se diferenciar dos demais animais e a criar a si próprio, pois desenvolveu a sua consciência, a personalidade e a memória declarativa (capacidade de verbalizar um fato), ao mesmo tempo em que, com tal capacidade pôde fixar os nomes na memória e criar uma realidade para si, pois saltou para fora da natureza e implantou sobre o mundo físico a cultura, cuja realidade só pode ser acessada através dos signos. 

 Este processo de instituição da realidade cultural continua, além do mais, a vigorar e se desenvolver, pois o homem segue atuando no mundo, na ciência, na cultura e no modo de se relacionar com os seus semelhantes. Assim, a evolução da  linguagem pode também não estacionar em seu auto-desenvolvimento.  As inovações tecnológicas,  acompanhadas  que são por novas formas de comportamento, paralelamente evoluem na mente humana juntamente com novos usos da linguagem que vão surgindo.  Por exemplo, com a descoberta da eletricidade, uma série de aparelhos e máquinas foram desenvolvidas, o que gerou novas comportamentos na vida em sociedade, o que gerou, simultaneamente, novos usos da linguagem. Marx e Engels, por exemplo, estudaram profundamente a sociedade industrializada e o sistema capitalista, pensaram em suas falhas e propuseram  um novo sistema econômico e social, posteriormente adotado na realidade de diversos países.  Daí recriarem termos como “ideologia”, “comunismo” e tantos outros para tentar entender a realidade do mundo capitalista.  Freud e Breuer, ao analisar o comportamento de pacientes que viviam no pós-guerra, criaram um novo ramo da Medicina, a psicanálise, que usa a linguagem de forma científica e terapêutica para curar traumas e doenças mentais.  Assim, necessitaram recriar termos como “pulsão”, “inconsciente” e tantos outros, bem como criar uma nova função para a linguagem. Nos dias de hoje, o uso das operações “on line”, os “sites de relacionamento” são a prova de que as relações estão se desenvolvendo cada vez mais em um plano simbólico.  Significa dizer que a linguagem se torna cada vez mais complexa porque as relações entre os signos e os seres e objetos estão cada vez mais abstratas, mais verificáveis no plano mental, representativo, na relação de signo para signo, em vez de ser de signo para objeto.  Portanto, revoluções culturais e tecnológicas acontecem em simultâneo com o aprimoramento da linguagem, vide, inclusive, a “realidade virtual” que hoje estamos vivendo por conta da tecnologia e da linguagem.

Para citar: VIGNA, Ricardo. A Importância da Linguagem. In: http: ricardovigna.wordpress. com. Acessado em: (coloque a data)
(Comentário sobre a imagem inicial:
 Aquilo é uma fotografia, é sinal que um ser humano a tirou e quer passar alguma mensagem.  A fotografia é uma linguagem, além de ser uma técnica, ou talvez uma arte.
Num outro contexto: buracos na areia nada significam , são elementos físicos: areia, céu, etc., mas se você é humano, possui linguagem, e pode interpretar que algum outro ser passou por ali.  Portanto os buracos na areia tornam-se signos.)
A seguir:
 O que é a Linguagem? O que é Signo?  
Bibliografia
BAKHTIN , Mikhail . Marxismo e Filosofia da Linguagem. 6ª ed. Trad M. Lahud e Y Viera.  São Paulo, 1992
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 1984.
HEIDEGGER, Martin. O Ser e o Tempo.  Petrópolis, Vozes, 2000
PEIRCE, Charles S. Semiótica. Trad. Trad. J. T. Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2000.
 

Notas Bibliográficas[1] Heidegger (
[2] Cf. Chauí (Convite à Filosofia, p.140):
[3] É fato que a linguagem se manifesta através de estruturas físicas como: desenhos, sons, grafemas, etc., todavia que à fundamenta essencialmente é a sua capacidade de simbolizar.  Veja adiante o conceito de signo.
[4] Bakhtin afirma isto com base em Dilthey (1992, p.49 ). Para Pierce (2000, p19), “sem linguagem não há pensamento” , apenas um sentir e um processo químico mental incomunicável; sem pensamento não há consciência e sem esta última não há não há nem sujeito nem conhecimento, e a realidade se torna vazia de significação, existindo apenas como objos concretos e materiais.
[5] Queremos dizer com isto, que não é possível encontrar provas do nascimento da linguagem através da análise fisiológica do cérebro de nossos antepassados simplesmente porque a linguagem é  algo abstrato, assim a investigação deve se dar no plano das idéias, isto é, na dedução, que é  “processo de raciocínio através do qual é possível, partindo de uma ou mais premissas aceitas como verdadeiras (p.ex., A é igual a B e B é igual a C) a obtenção de uma conclusão necessária e evidente (no ex. anterior, A é igual a C)” . Cf. Houaiss (2001,  ver verbete).  É isto que faremos a seguir.
[6] Esta descoberta se deve a Austin.
 FIM

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